quinta-feira, 3 de maio de 2012

Diferença entre ciência e tecnologia

Trecho muito elucidativo do programa The True Outspeak do dia 15 de Outubro de 2007:

"Hoje em dia o pessoal tem uma visão muito idealizada do que seja a ciência moderna e até atribui às ciências a função de decretar o que é realidade, separar realidade da fantasia. Em primeiro lugar, é preciso saber que nenhuma ciência estuda a realidade, nenhuma ciência pode estudar a realidade concreta. A ciência estuda aspectos abstrativos que em si mesmos não existem. E a mera possibilidade de você poder coerir os resultados de uma ciência com outra é um problema que transcende a capacidade de qualquer ciência. Como você vai juntar, digamos, os fatores fisioquímicos e antropológicos do problema das drogas? Não tem uma ciência que estude isso. Eles fazem hoje um negócio que chamam de interdisciplina, que significa juntar um monte de especialista, cada um de uma ciência, e costurar o resultado às pressas. Não existe critério pra isso.

A ciência só estuda aspectos abstrativos e se você juntar todos esses aspectos abstrativos você não compõe uma realidade concreta. A autoridade da ciência com relação à realidade é nula. A ciência só tem autoridade em relação a aspectos hipotéticos da realidade. Agora, quando o pessoal alega 'ah, mas a tecnologia, como é que você explica?', olha, quem acha que tecnologia depende da ciência é um maluco, não entende como funciona a tecnologia. Tecnologia é o contrário da ciência. A ciência recorta um aspecto da realidade e busca os princípios constitutivos deste aspecto, mas ela recorta a realidade de acordo com os princípios hipotéticos que ela espera encontrar, e geralmente acaba encontrando os mesmos princípios. Então, em grande parte, a atividade científica é uma atividade tautológica, feita só pra conferir coisas que você já sabia antes.

Agora, a técnica não. A técnica tem que usar meios heterogêneos coeridos em vista de um fim. Entre estes vários meios não existe nenhuma explicação científica comum. Por exemplo, pra fazer um computador, vamos pegar só três elementos do computador. Você precisa, em primeiro lugar, dum elemento matemático chamado código binário. Segundo lugar, você precisa dum treco chamado eletricidade. E em terceiro lugar, você precisa da química dos plásticos pra fazer o computador. Existe algum princípio científico comum que explique essas três coisas? Um princípio científico que seja a raiz do código binário, da eletricidade e da química? É claro que não. Então, o raciocínio da técnica é o contrário da ciência. A ciência busca a coerência que só é possível dentro de um campo abstrativamente recortado. A técnica é o contrário, ela coere, num mundo concreto, fatores que não tem nada a ver um com o outro para a produção racional de um resultado. Isso quer dizer que, mais a ciência deve à técnica do que a técnica deve à ciência.

Agora, a ciência moderna é em grande parte um fetiche. E a história da ciência é feita de mitos que só enganam idiotas. Por exemplo, você acreditar que 'ah, antigamente, os caras viviam numa ilusão porque achavam que a Terra era o centro do universo e daí veio Galileu e provou que o Sol tava no centro'. O Sol não tá no centro de merda nenhuma. E o sistema geocêntrico é tão bom quanto o sistema heliocêntrico, é apenas uma questão de medida. Mas acontece o seguinte, como Galileu e outro acreditavam em antigos cultos solares, os caras eram esotéricos, místicos, malucos, então achavam que o Sol era o centro do Cosmos. Preste atenção, eles não disseram que o Sol era apenas o centro do seu próprio sistema, não, era o centro do universo. Então criaram uma espécie de culto solar. O cara da igreja que examinou o negócio, que foi São Roberto Belarmino, falou 'olha, se você disser que o Sol é o centro dum sistema até pode ser, mas dizer que é o centro do universo é maluquice'. Hoje sabe-se o quê? Que São Roberto Belarmino tava certo e Galileu tava errado. No entanto, Galileu entra pra história como o nego que descobriu a realidade e estourou a ilusão dos outros, mas a ilusão era dele.

Então, o número de elementos místicos, mágicos, esotéricos que estão escondidos na história da ciência... Eu, outro dia mesmo, dei uma aula aqui sobre Newton, mostrando que Newton era mais macumbeiro do que qualquer outra coisa... E isso não se ensina, então se cria o quê? Se cria um fetiche, pra criar uma espécie de autoridade sacerdotal da ciência pra depois poder impor ao mundo essas empulhações, tipo Al Gore. Por isso que a autoridade da ciência tá indo pras picas."

A coisa segue e é sensacional, mas vou transcrever só até aqui, pois o assunto começa a seguir outro rumo ;)

2 comentários:

André Moraes disse...

Olá Marcell!!! Achei excelente o seu texto. Sou formado em Direito. E pretendo escrever uma dissertação de mestrado criticando a visão científica do Direito, ao meu ver, o Direito é ao mesmo tempo técnica e arte, e não ciência. Ciência, como você disse, é apenas dogma, uma substituta para religião. Você teria alguma sugestão de bibliografia que trate dessa crítica da ciência?

Abraço

André Moraes

Marcell Schröer disse...

Oi, André. O texto não é meu. É uma transcrição dum podcast do Olavo de Carvalho (isso é mencionado lá no topo do post).
Não saberia te indicar uma bibliografia relacionada a isso, mas o mesmo Olavo deve ter escrito algo relevante nesse campo. EU tenho minhas opiniões sobre o tópico, mas não sou ninguém pra ser usado como referência, hehehe.