domingo, 27 de maio de 2012

Do Tempo

Lembro de certa vez ter lido uma conversa entre protestantes (não lembro de que linha) sobre artes em geral. Discutiam se podiam ou não ouvir música não-gospel ou se deveriam rejeitar tudo que era secular. Achei uma tolice e digo o motivo. Teve um post aqui no qual falei que a Verdade reside também nas artes. Quem nunca assistiu um filme, ouviu uma canção ou leu um poema e teve insights, aqueles pequenos estalos que nos trazem um entendimento maior das coisas? Óbvio que existe muito lixo, mas com um mínimo de inteligência se consegue separar o joio do trigo, e ali reside muita sabedoria e beleza.

Assim sendo, aproveito para homenagear um dos meus artistas favoritos, falecido há mais de 10 anos, e que com sua simplicidade e perspicácia animou tantas chimarreadas. Ícone da cultura rio-grandense, hoje meio esquecido em meio a tanta porcaria.

Jayme Caetano Braun

Do Tempo


O tempo vai repontando
O meu destino pagão
Vou tenteando o chimarrão
Da madrugada clareando
Enquanto escuto estralando
O velho brasedo vivo
Nesse ritual primitivo
Sempre esperando, esperando...
É a sina do tapejara
Nós somos herdeiros dela
Bombear a barra amarela
Do dia quando se aclara
Sentir que a mente dispara
Nos rumos que o tempo traça
Eu me tapo de fumaça
E olho o tempo veterano
Entra ano e passa ano
Ele fica, a gente passa
Que viu o tempo passar
Há muita gente que pensa
Mas é grande a diferença
Ele não sai do lugar
A gente que vive a andar
Como quem cumpre um ritual
É o destino do mortal
É o caminho dos mortais
Andar e andar, nada mais
Contra o tempo, sempre igual.
Tempo é alguém que permanece
Misterioso impenetrável
Num outro plano imutável
Que o destino desconhece
Por isso a gente envelhece
Sem ver como envelheceu
Quando sente aconteceu
E depois de acontecido
Fala de um tempo perdido
Que a rigor nunca foi seu.
Pensamento complicado
Do índio que chimarreia
Bombeando na volta e meia
Do presente no passado
Depois sigo ensimesmado
Mateando sempre na espera
O fim da estrada é a tapera
O não-se-sabe do eterno
Mas a esperança do inverno
É a volta da primavera.
Os sonhos são estações
Em nossa mente de humanos
Que muitas vezes profanos
Buscamos compensações
Na realidade as razões
Onde encontramos saída
Nessa carreira perdida
Que contra o tempo corremos
Já que, a rigor, não sabemos
O que haverá além da vida.
Dentro das filosofias
Dos Confúcios galponeiros
Domadores, carreteiros
Que escutei nas noites frias
Acho que a fieira dos dias
Não vale a pena contar
E chego mesmo a pensar
Olhando o brasedo perto
Que a vida é um crédito aberto
Que é preciso utilizar.
Guardar dias pro futuro
É sempre a grande tolice
O juro é sempre a velhice
E de que adiante este juro
Se ao índio mais queixo duro
O tempo amansa no assédio
Gastar é o melhor remédio
No repecho e na descida
Porque na conta da vida
Não adianta saldo médio!

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