segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Da engenharia social

Para mudar a cultura de um povo não ataque a cultura em si, mas crie novos hábitos que, retroativamente, serão justificados porque “sempre foi assim”.
Dito isso, vamos ao que interessa...

O adolescente, devido à sua inexperiência e pouca vivência, tende a ser revolucionário. Por simples ignorância, rejeita aquilo que veio antes de si, as tradições, a caretice do conservadorismo, etc. Por ainda não compreender a complexidade da existência humana e sua sociedade, tem a si mesmo como centro do universo. Assim sendo, a coisa mais importante do (seu) mundo é a própria satisfação, que acredita que só será alcançada através do imediato, das práticas sexuais, do consumo de drogas “recreativas”, festas, diversões e afins.
O “mais velho”, reconhecendo o erro, tentará aconselhá-lo, ajudá-lo, talvez censurá-lo e até castigá-lo, se necessário. Ainda incapaz de entender tais atitudes, o jovem vai ver nisso uma tentativa de impedi-lo de ser feliz, voltando-se contra seus censores. Quando se apega a alguma luta contra injustiças tenha certeza de que é porque ele mesmo se sente injustiçado, não porque está preocupado com os outros.

Esse “choque de gerações” torna o mancebo extremamente suscetível ao novo, ao “progresso” (pois tudo que é novo DEVE ser melhor), e à engenharia social. Então, se se deseja mudar a cultura de um povo através de hábitos novos, quem melhor que o jovem para assimilá-los e torná-los normais?

Há uns dez anos, piercings e tatuagens eram comuns em grupos específicos, sendo vistos com suspeita e aversão pela população em geral. Com o passar do tempo, pessoas cada vez mais novas passaram a adotar tais adornos (hoje vi um moleque de uns 10 anos usando brinco), fazendo daquilo uma prática tão habitual que senhoras de 50 anos passaram a usá-los também. É difícil sair na rua hoje e não se deparar com várias mulheres de idades e classes sociais diversas com flores, estrelinhas e borboletas tatuadas nos ombros e braços. O desrespeito com o próprio corpo, a agressão, a automutilação em nome de uma falsa auto-estima (assunto já abordado aqui e aqui) passaram a ser aceitáveis.

A promiscuidade e a sexualidade exacerbada e prematura são outro exemplo e nesse aspecto acredito que a internet tenha grande parte da culpa. Meninas cada vez mais permissivas, sem qualquer respeito próprio, se filmando e fotografando de forma erótica (quando não pornográfica) para se exibir para meninos transbordando hormônios, tudo em nome da vaidade. As tais ficadas (que outrora eram tão bobinhas) e a conduta libidinosa se espalharam de tal forma que mulheres de 40, 50 anos as adotaram também. Castidade e virgindade passaram a ser sempre relacionadas à Santa Igreja, o que na mente juvenil é sinônimo de retrocesso, de caretice.

Outro exemplo bastante recente é a aceitação, quando não adoração, da conduta homossexual. Outrora motivo de piada, hoje é inatacável, sob pena de execração pública e processo judicial.

O velho tende a ser resistente a toda essa propaganda graças à própria experiência. Seus valores morais foram lapidados com o passar das gerações, mas o adolescente despreza valores morais. Eles cerceiam sua liberdade absoluta, tornam amarga sua felicidade, são coisa do passado e devem ser abandonados. Seu oposto deve, portanto, ser o certo a buscar. Se o velho criticou é porque é bom! Com essa ânsia por novidades, torna-se presa fácil de qualquer nova tentação.

Lógico que o adolescente não é a única vítima direta dessas ferramentas de engenharia social. É apenas a mais entusiasmada. Donas-de-casa também o são através de novelas, com seus personagens devassos, gays sofridos e adoráveis, divórcios constantes, ricos perversos e pobres imaculados. Isso mais a porca literatura pop, a música de baixíssima qualidade das rádios e o cinema hollywoodiano levam a mensagem a praticamente toda população.

Depois que as novidades são adotadas simplesmente por serem novidades, ficam cada vez mais comuns até se tornarem a regra. O pobre brasileirinho, sempre buscando a aceitação do bando, não vai querer ser a aberração, certo?*
Ué, mas isso sempre foi desse jeito, não?




*O psicólogo Lawrence Kohlberg definiu o desenvolvimento moral em seis graus, que são os seguintes: “No mais baixo e primitivo, em que a conduta humana faz fronteira com a dos animais, a motivação principal das ações é o medo do castigo. É o estágio da “Obediência e Punição”. No segundo (“Individualismo e Intercâmbio”), o indivíduo busca conscientemente a via mais eficaz para satisfazer a seus próprios interesses e entende que às vezes a reciprocidade e a troca são vantajosas. No terceiro (“Relações Interpessoais”), os interesses imediatos cedem lugar ao desejo de captar simpatia, de ser aceito num grupo, de sentir que tem “amigos” e distinguir-se dos estranhos, dos concorrentes e inimigos. No quarto (“Manutenção da Ordem”), o indivíduo percebe que há uma ordem social acima dos grupos e empenha-se em obedecer as leis, em cumprir suas obrigações. No quinto (“Contrato Social e Direitos Individuais”), ele se torna sensível à diversidade de opiniões e entende a ordem social já não como um imperativo mecânico, mas como um acordo complexo necessário à convivência pacífica entre os divergentes, No sexto e último (“Princípios Universais”), ele busca orientar sua conduta por valores universais, mesmo quando estes entram em conflito com os seus interesses pessoais, com a vontade dos vários grupos ou com a ordem social presente.”
Fonte: http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/14610-a-moral-do-brasil.html


Obviamente o brasileiro quase nunca passa do terceiro grau, sendo um escravo da coletividade, o que explica porque a engenharia social funciona tão bem por estas bandas. Afinal, todo mundo faz, todo mundo sempre fez, por que eu não faria? Foi sempre desse jeito, não?