segunda-feira, 11 de junho de 2012

Deicídio


Deicídio


Criança de inteligência rara, tornara-se um adulto ainda mais brilhante. Pessoa distinta, erudito nas artes humanas e conhecedor do desconhecido pela maioria. Era um ateu convicto, aquele homem, como poucos religiosos eram fanáticos. Ufano, menosprezava com furor os que o contradiziam e os esmagava com seu ceticismo e argumentação impecáveis. Era, definitivamente, um sujeito arrogante, invariavelmente teimoso e poucos toleravam sua presença, tamanha sua antipatia para com os “inferiores”, como gostava de tachar todo aquele que não o bajulava – coisa que ninguém fazia. Não foram poucas as suas discussões que terminaram em agressões verbais por parte dos adversários, tamanha sua sina de humilhá-los simplesmente porque podia. “Todos tolos, os que me contradizem, pois não percebem que não possuem minha grandeza intelectual, jamais poderão me contrariar!”, gabava-se sozinho, pois poucos ainda lhe davam ouvidos.
Travava com ainda mais desprezo os religiosos que, vez e outra, colocavam-se a pregar diante de sua morada. “Ah, mais um daqueles patéticos adoradores de espantalho! Pois, que querem, além de me aborrecer com as bazófias do tal de Jesus, que, de tão poderoso era, morreu em vão por gente como vocês?”, zombava, com fogo no olhar.

- Viemos falar sobre o Deus vivo que a Bíblia nos descreve. O senhor tem um minuto para nos ouvir?
- Eu teria um minuto se fosse para discutirmos algo relevante, mas não para ouvi-los, como matracas, repetirem o que esse livrinho velho e tolo diz! Acha que sou estúpido e não posso ler por mim mesmo? Não tenho tempo para papagaios! Ponham-se para fora daqui, antes que eu chame a carrocinha! – vociferou, batendo a porta atrás de si em seguida.

E lá se foram os religiosos, pasmos com a grosseria para a qual não estavam preparados e orando em silêncio por aquele homem que parecia não ter ouvidos para nada além do eco dos próprios pensamentos.
Num de seus constantes arroubos de egolatria, chegou à conclusão que lhe custou o pouco de sanidade que ainda restava: “Sou meu próprio deus,” – disse cheio de pompa. E, a partir dali, tornou-se ainda mais insuportável aos olhos e ouvidos alheios. Andava sempre de cabeça erguida, muitas vezes ignorando quem lhe dirigia a palavra, fazendo pouco caso de tudo e todos. “Sou importante demais pra dar atenção a estes tolos miseráveis, pois não percebem minha condição de ser divino! Sou meu próprio Deus, suficiente e necessário”, dizia a si mesmo em uma de suas conversas com o próprio ego.
Mas eis que caiu na própria armadilha, pois num breve momento de clareza lembrou-se de algo crucial: era ateu. “Que será de mim agora, se não existo? Sou o criador de tudo e todos, mas sou incapaz de habitar meu próprio reino. Estou preso em uma arapuca de minha própria criação, pois sou Deus e sou descrente”, argumentava em uma de suas discussões mais longas com um cachorro – único ouvinte que ainda o tolerava. E em sua própria contradição estava aprisionado, tentando, em vão, colocar os já distorcidos pensamentos em ordem. Tornou-se obcecado pela idéia e simplesmente esquecera de todo o resto. Deixou de cuidar de si mesmo, ficando logo sujo, desarrumado, praticamente um mendigo. Quem se importaria com ele, afinal? E quem se daria o trabalho de ajudar um homem daqueles, vítima do próprio egoísmo, que sempre tratou todos como se valessem menos que o chão onde pisava? Os poucos que não o odiavam, o temiam.
Assim sendo, passou seus últimos dias vagando sem rumo, trôpego, embriagado pela loucura que o dominara e tomado pelo desespero de não acreditar na própria existência. Pensava em suicídio, mas logo percebia que não poderia matar o imortal, muito menos destruir o que não existia. Estava de fato preso em um paradoxo e não havia escapatória de suas próprias certezas, pois era incapaz de admitir que estava errado, ainda mais agora que considerava-se divino.
Então definhou até seu derradeiro momento, jogado numa sarjeta qualquer, balbuciando palavras de um lunático megalomaníaco, engasgando-se na própria saliva. “E assim, acaba-se uma era. E assim, morre um deus. Nietzsche estava certo”, resmungou delirante, pouco antes de fechar os olhos úmidos e nunca mais abri-los.

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