sábado, 13 de abril de 2013

A hipersensibilidade


"Um fenômeno paralelo à insinceridade é a hipersensibilidade. A insinceridade esconde dos outros as limitaçoes próprias; a hipersensibilidade ressente-se quando os outros as corrigem ou desvendam.
Em determinadas pessoas, nota-se um fenômeno singular: são extraordinariamente sensíveis para as coisas que lhes dizem respeito, e manifestam uma notável insensibilidade para as coisas que dizem respeito aos outros; têm uma epiderme delicadíssima -- como a de uma criança -- para os assuntos que as afetam, e uma pele paquidérmica para os assuntos que afetam os outros; possuem antenas potentíssimas que detectam a mínima suspeita e insinuação pejorativa de caráter pessoal, e pupilas cegas para aquilo que afeta ou magoa o próximo. Este fenômeno é outra decorrência do egoísmo.
Uma pessoa normal -- quer dizer, uma pessoa consciente de sua própria realidade -- não se irrita quando alguém de boa vontade a corrigir ou lhe oferece uma crítica construtiva. Se é amadurecida, agradece. O orgulhoso, pelo contrário, sente a crítica como um ataque pessoal. Supervaloriza a correção com uma reação emocional. Como explicar a intensidade da sua ira? A sua explosão irracional só pode ser plenamente compreendida se se tiver presente que o seu mundo começa e termina nele. A sua personalidade e a sua segurança baseiam-se na falsa imagem inventada pelo seu orgulho. E quando alguém o critica, tem a sensação de que esse suporte começa a fragmentar-se, e experimenta a vertigem e quem sente o chão desaparecer-lhe debaixo dos pés. A sua ira intensa é como o instinto de defesa ou de conservação de um animal acuado. A sua agressividade é por isso, paradoxalmente, um claro sinal de insegurança.
O orgulho ferido pode ter ainda outra manifestação alternativa: a depressão. Há pessoas que não reagem violentamente, mas fecham-se  em si mesmas, abaladas, tristes. É como se ficasse de "luto" diante dese formidável "eu" que sonhavam ser, e que acaba de morrer vítima de uma crítica ou de uma correção que lhes parece injusta. Não são poucas as 'vítimas' que encontramos ao nosso lado nem os que se deixam dominar pelo 'complexo de Cinderela'. Ninguém se lembra de mim, não me tratam como mereço. Quando chegará alguém que reconheça as minhas qualidades? Em que momento serei libertada pelo 'príncipe encantado'? Dá pena ver tantas pessoas reconcentradas sobre as suas pequenas feridas, chorando o hipotético abandono a que se sentem relegadas, remoendo as mágoas provocadas por supostas injustiças... Um miligrama de aparente desrespeito ou indiferença representa para elas um autêntico veneno. Dai a auto-piedade, que é um sentimento mais comum do que se pensa: julga-se com frequência que se precisa de uma afeição especial, maior do que aquela de que precisam os outros. Este sentimento leva a justificar como legítima essa 'chantagem afetiva' que aumenta as próprias dores para chamar a atenção sobre si.
Em todas estas manifestações, revela-se um 'subjetivismo' muito próprio da pessoa imatura. Quanto mais imaturo ou mais primitivo for o ser humano, mais intensos serão os laços de referência pessoal que mantém com o meio ambiente. Para o homem das cavernas, um relâmpago significará um sinal do céu pessoalmente dirigido a ele; de modo paralelo, a impressão de que grande parte das coisas se referem a nós -- tanto as elogiosas como as pejorativas -- é um sintoma claro desse subjetivismo 'primitivo', característico das pessoas imaturas.
Há outras variantes desta hipersensibilidade, mas todas elas se sintetizam num tipo genérico de pessoa, consagrado por uma expressão comum: a pessoa 'difícil'. É 'difícil' falar com ela sem que fique ressentida; apesar de estar rodeada de solícitos cuidados, é 'difícil' agradá-la; é 'difícil' que se sinta à vontade num ambiente em que não seja o centro das atenções... Alguém dizia deste tipo de pessoas que, para relacionar-se com elas, é necessário estudar 'trigonometria'. Nunca se pode abordá-las de forma simples e direta; é preciso ter muito cuidado, utilizar linhas quebradas, fazer triangulações....
Essas pessoas 'difíceis' parecem estar sufocadas pela sua própria importância, pela importância que atribuem ao seu nome, à sua dignidade e à sua honra. Estão como que corroídas por uma doença epidérmica, por uma suscetibilidade alérgica a tudo o que de longe possa significar desrespeito ou falta de consideração. Isto as torna suspicazes, desconfiadas e melindrosas. Sofrem extraordinariamente.
Nunca chegaremos à objetividade e ao realismo da verdadeira maturidade enquanto não compreendermos que nós somos, em última análise, o que somos diante de Deus. E mais nada. O resto não importa."
(CIFUENTES, Rafael Llano; "Egoísmo e amor")

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