terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pela razão


** Relevante deixar claro aqui que o objetivo deste post não é converter ninguém, apenas explicar algo que de vez em quando me perguntam. Cada um faz o que bem entender com o exposto adiante ;) **


Passei alguns dias remoendo como faria este post. Resolvi não perder tempo e nem incomodar os leitores falando de minha experiência pessoal de conversão, pois, por ser pessoal, não fará sentido pra quem não vivenciou o mesmo. Afinal, como dizia o poeta:

A lágrima é um silêncio guardado pela alma,
Que se solta simplesmente por partir,
E querer explicá-la com palavras,
É cantar saudades a quem não sabe sentir.”

Ou como disse o professor Olavo: "Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer”.

Assim sendo, atemo-nos ao que interessa, que é o fato de ter me convertido pela razão, coisa que me soava absurda e digna de troça quando comentavam comigo. Já fiz um post baseado em mim e num amigo onde explicava o que nos levava e nos mantinha no ateísmo, que foi minha condição por 16 anos. Fui um ateu bem atuante até, sempre me metendo em discussões em fóruns e saindo vencedor na maioria das situações. Hoje percebo que vencia por ter melhor retórica, não por ter razão. Era um relativista, sempre podia fazer voltas e mais voltas em torno dum argumento sem chegar a lugar nenhum. Olhando pra trás, vejo o quão desonesto era, o quanto apelava pra falácias, em especial a do espantalho, onde se cria uma caricatura do argumento apresentado e a destrói com facilidade, agindo, então, como se tivesse destruído o argumento do qual a caricatura foi feita. Não façam isso, crianças, é muito feio. 
Bom, deixando esse lero-lero todo de lado, vamos a alguns raciocínios LÓGICOS, coisas sobre as quais temos que pensar de forma honesta se quisermos realmente chegar a algum lugar.

Em primeiro lugar, é importante entender que TODOS tem fé nalguma coisa. Me diziam isso antigamente e achava uma tolice, mas é só uma questão de entender que fé não se limita à espiritualidade, mas a quase tudo que se “sabe”, além de ser sempre baseada nalguma evidência. A diferença entre o tradutor e o tradutor juramentado, por exemplo, é que o segundo possui a fé pública, o que ele traduz é considerado certo por todos, afinal conseguiu passar num concurso bem disputado e difícil. Você tem fé de que quando abrir a janela o mundo ainda estará lá fora e acredita nisso baseado no fato de que viu isso acontecer todos os dias de sua vida. Assim sendo, a fé que temos no espiritual, no metafísico, no “invisível”, não é baseada em achismos, mas numa sólida base racional e, em parte, acredite ou não, no empirismo.

Estando isso claro, falemos de algo que, pra mim, foi fundamental para entender que eu era um ignorante por afirmar que a vida humana era um simples acidente físico-químico e não passava disso.

A vida não é o oposto da morte. A morte é o oposto do nascimento. A vida é eterna.

Pra entender isso, é importante compreender que nossa consciência não está no cérebro, não depende dele. Uma das evidências disso é a quantidade imensa de relatos de pessoas que estavam clinicamente mortas, sem nenhuma atividade cerebral, voltaram e mostraram que estavam conscientes de tudo que acontecia ao seu redor. No post sobre o Anathema tem um desses relatos, mas deixo aqui dois vídeos, em inglês e sem legendas, com diversos desses depoimentos e todos muito interessantes:


Reparem que os relatos possuem pequenas diferenças (um viu o próprio corpo, outro não), mas, em geral, são muito coerentes. Lembro que atacava esse tipo de caso dizendo que eram delírios de uma mente moribunda, mas como explicar o caso daquela pessoa (não lembro do nome) que deixou seu corpo e viu coisas que simplesmente não poderia ter visto de outra forma, como um sapato no teto do hospital e, quando foram checar, o sapato estava lá mesmo?
Se nossa consciência independe de nosso corpo, nós não somos corpos. O que somos, então?

Se o ser humano não é um ser imaterial a viver num corpo físico, então a noção de “livre arbítrio” é uma ilusão uma vez que o que governa a matéria são as forças da natureza. Se essas mesmas forças governam as nossas decisões, então nós somos apenas forçados a agir segundo aquilo que as forças da natureza fazem no nosso corpo.
Se nós não somos a alma, então nós não somos livres para escolher o nosso comportamento e, portanto, as prisões deveriam ser abertas e todos os presos libertos uma vez que eles não são culpados por agirem como agiram
.

Há outros argumentos nesse sentido, alguns baseados apenas em lógica, mas não quero me alongar nesse ponto, pois os exemplos acima me parecem suficientes. Se alguém quiser mais explicações, que me procure por e-mail.

Falemos das implicações disso... Se a vida não termina com a morte do corpo, se continuamos a existir, se somos a alma, se torna inválida a idéia que eu defendia quando ateu: “somos só genes se reproduzindo, somos a simples vontade de existir e continuar existindo. O sentido da vida é a reprodução e só”.  Ora, se assim fosse, por que continuaríamos a existir depois da morte do corpo físico? Simplesmente não faria sentido. E falando em sentido...

A pergunta que todo mundo já se fez um dia é “de onde veio o Universo?”. Era um tópico sobre o qual evitava pensar porque o ateísmo simplesmente não se sustenta de forma alguma aqui. Temos duas opções: o Universo surgiu do nada, espontaneamente; ou foi criado.  Não é necessário ser um grande gênio pra saber que o nada é incapaz de produzir qualquer coisa. O nada, por definição, não pode passar a ser outra coisa sem influências externas. A Teoria do Big Bang, tão idolatrada pelos fãs da ciência, não tem como se sustentar sozinha, pois o vazio não poderia produzir matéria, expandi-la, gerar toda a existência e ordem (diga-se de passagem, quem desenvolveu essa teoria foi um padre). Seria necessário uma causa-primeira para gerar a matéria/energia e iniciar a expansão, então...
Sobrou-nos a segunda alternativa. Algo ou alguém criou o Universo, começou a tal explosão inicial. Algo ou alguém de inteligência e poder infinitos, pois a ordem que se observa no Universo é incrível. A matemática, as leis da física, tudo tão organizado, complexo e perfeito. E não, essas coisas não são concepções humanas, elas já existiam antes de nós. Apenas as reconhecemos e lhes demos nomes. 
Esse algo ou alguém, chamamos de Deus.

Para demonstrar que Deus não existe, seria necessário que aquilo a que vocês chamam ciência descobrisse um elemento primordial desprovido de causa, que existisse por si mesmo, e cuja presença explicasse todo o resto e abolisse todas as dúvidas, e é justamente a esse elemento que nós chamamos Deus.” – André Frossard, sucessor de René de Castries na Academia Francesa

E assim, amiguinhos, eu abandonei o ateísmo e me tornei teísta através da razão. Daí pro cristianismo foi um passo, mas isso é outra história...

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