domingo, 30 de setembro de 2012
Balelas sobre a Inquisição
O número de balelas que circulam a respeito da Inquisição é assombroso. Elas constituem uma capítulo importante do fabulário popular — do “senso comum”, diria Gramsci— que sustenta a crença na superioridade do mundo moderno e de seus intelectuais. Eis algumas:
1 - [[A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico, proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas.]] Basta examinar o "Index Librorum Prohibitorum" para verificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico, Kepler, Newton, Descartes, Galileu, Bacon, Harvey e tutti quanti.
A Inquisição examinava apenas livros de interesse teológico direto, que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciência moderna. ( Em caso de dúvida, leia-se A Inquisição, por G. Testas e J. Testas v. Bibliografia no fim deste volume. )
2 - [[Giordano Bruno foi um mártir da ciência, condenado pela Inquisição por defender teorias científicas.]] Giordano Bruno não fez nenhuma descoberta, nenhuma observação, nenhum experimento científico.
Nem sequer estudou as ciências modernas, física, astronomia, biologia ou matemática. As disciplinas que lecionava eram tipicamente medievais: lógica, gramática e retórica o trivium. Ele desprezava a nova mentalidade matemática, e todos os cientistas matematizantes, de Galileu a Descartes, mostraram a maior indiferença pela sua obra, cujo maior mérito é justamente o de ter antecipado muito do que hoje podemos dizer contra a ciência moderna (v. Paul-Henri Michel, La Cosmologie de Giordano Bruno, Paris, Hermann,
1975. ).
Ele não foi condenado por defender teorias científicas, mas por prática de feitiçaria, que na época era crime. Não sei se a acusação era procedente, provavelmente não era, mas aos que julguem um absurdo preconceito de eras pretéritas imputar à feitiçaria, de modo geral, qualquer caráter criminoso, recomendo a leitura do ensaio de Claude Lévi-Strauss, “O Feiticeiro e sua Magia” (em Antropologia Estrutural, trad. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires, Rio, Tempo Brasileiro, 1975 ), sobre a realidade das mortes por enfeitiçamento. — Para completar, a pesquisa histórica mais recente revelou que Bruno esteve muito provavelmente envolvido em atividades de espionagem contra a Igreja Católica (v. John Bossy, Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada, trad. Eduardo Francisco Alves, Rio, Ediouro, 1993).
3 - [[A Inquisição instituiu a perseguição aos judeus.]]
As matanças de judeus, promovidas por devedores espertos ou por monges fanáticos, eram um hábito consagrado na Península Ibérica. Não conseguindo reprimir a ralé enfurecida, o Rei de Portugal pediu que o Santo Ofício se incumbisse dos processos por usura, de modo a tirar qualquer pretexto que legitimasse as atrocidades dos “justiceiros populares”.
Instituindo os processos regulares, a Inquisição controlou e enfim extinguiu as matanças.
É verdade que a Inquisição se mostrou preconceituosa contra os judeus, mas se em vez de julgá-la por um padrão moral abstrato e utópico a comparamos com as alternativas reais existentes na época, entendemos que ela foi um mal menor: a única alternativa era o massacre ( v. Alexandre Herculano, op. cit. ).
4 - [[A Inquisição instituiu a tortura generalizada.]] A tortura era considerada um procedimento legítimo e praticada em toda parte desde a Grécia antiga. Durante quase toda a Idade Média, caiu em desuso, sendo reintroduzida na justiça civil graças à redescoberta — tipicamente renascentista — dos textos das antigas leis romanas. O que a Inquisição fez foi seguir o uso então vigente na justiça civil, mas limitando-o severamente, não permitindo que o acusado fosse torturado mais de uma vez e proibindo ferimentos sangrentos ( v. Testas, op. cit. ).
Deve-se portanto à Inquisição o primeiro passo efetivo que se deu contra o
uso da tortura, o que deveria ser considerado um marco na história dos direitos humanos. A tortura ilimitada
foi depois reintroduzida pelos comunistas, na Rússia, sendo seu exemplo imitado em seguida pelos nazistas e fascistas.
5 - [[O processo de Galileu foi um caso de perseguição inquisitorial.]] Bem ao contrário, o processo foi uma pizza, uma farsa concebida pelo Papa padrinho de Galileu para que seu protegido se livrasse de um grupo de inquisidores fanáticos mediante uma simples declaração oral sem efeitos práticos, após a qual ele pôde continuar divulgando suas idéias sem que ninguém voltasse a incomodá-lo ( v. Pietro Redondi, Galileu Herético, trad. Júlia Mainardi, São Paulo, Companhia das Letras, 1991 ).
Os philosophes de modo geral não ignoram essas coisas, mas falar delas não é bom para a sua saúde e suscitaria desconforto na platéia. Associar, assim, Idade Média com Inquisição, e sobretudo filosofia medieval com Inquisição, é um descalabro cronológico equivalente ao de apontar Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda de D. João VI.
CARVALHO, Olavo de. 'O Jardim das Aflições'. Ed. Topbooks. Rio de Janeiro, 1998.
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