quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Algo antigo

Nem sempre fui o mancebo feliz e cercado de pessoas agradáveis que sou hoje. Houve tempos nebulosos onde a única companhia era a escrita. Daqueles tempos, ressuscito esse texto aí, pois sei que alguns hão de se identificar de uma forma ou de outra:



Aquele Estranho


Sabe quando criamos o hábito de passar sempre pelo mesmo lugar e acabamos vendo uma mesma pessoa sempre, até nos familiarizarmos com ela, embora continuemos sendo estranhos um para o outro? Acontece comigo. Sempre que passo por um... Nem sei direito que lugar é aquele, acho que é uma espécie de agência de seguros ou algo assim. Paredes branquinhas, bem limpas, várias mesas e sempre tem todo tipo de pessoa sentada lá dentro. Bom, voltando... Sempre que passo pela tal agência eu olho pelo vidro e vejo o mesmo sujeito todos os dias. Ele não sabe que eu existo e, se sabe, não faz a menor idéia de quem sou, quais são meus sonhos, meus planos, meus amores e desafetos. Sou só um cara que ele vê às vezes. Na verdade, é recíproco. Ele está sempre ocupado com seus próprios pensamentos, tem um olhar meio vago, quase perdido... Como se sentisse falta de algo que era, mas já não é mais.
Acho que é como quando já estamos crescidos e lembramos de algo que gostávamos na infância, mas que agora parece tão bobo. A lembrança vem cheia de doçura, até rimos sozinhos, mas logo percebemos que se trata de algo que não volta mais e, ao mesmo tempo, nos sentimos crescidos demais para sentir falta daquilo. As boas memórias da infância acabam virando um misto de nostalgia, amargura e culpa. Sim, bate a culpa por causa daquela “ojeriza” que vem junto com a saudade, entende?
Talvez ele sinta falta de algum amor que se foi. Todo mundo deve sentir isso alguma vez na vida, não? Talvez ele lembre de bons momentos que vivenciou. Talvez sinta culpa por pequenos defeitos terem sido tão valorizados, gerando aquelas brigas desnecessárias e que o fizeram rir depois de um tempo. Ou talvez o amor tenha morrido nele, magoando outra pessoa na qual o sentimento ainda era forte, transformando o que era belo em pura tristeza. Ou será que era solitário? Talvez ele chegue em casa todos os dias e diga ‘cheguei’ para ninguém ouvir, fique horas sentado no sofá sem fazer nada diante da TV e depois vá dormir, sentindo aquele frio que só a solidão causa e que nem todo fogo do Inferno poderia aquecer.
Certa vez, vi uma lágrima correndo no rosto dele. Uma só. Sabe o que isso significa, não? Quando alguém briga, se emociona ou coisa assim, verte várias lágrimas, põe tudo para fora. Mas quando é só uma é porque algo está bem errado. É comparável a um vazamento na parede. Se a água jorra, é só desligar o registro e consertar o encanamento. Mas quando ficam só aquelas poucas gotas escorrendo, provavelmente a parede já está toda corroída por dentro, bastante frágil, podendo ruir ao mais leve toque. Pergunto-me que tamanha tristeza gerou aquilo. Será o vazio em sua vida que ele fingia não existir? Sim, pois uma das maiores preocupações das pessoas é parecer bem mesmo quando o mundo desmorona. Mas os olhos sempre acabam entregando tudo... E o olhar daquele estranho me dizia muito. Talvez ele não consiga mais disfarçar o que sente, ou eu que me acostumei com a linguagem daquele par de espelhos.
De uns tempos para cá, aconteceu algo curioso. Comecei a ver aquele estranho em outros lugares. Sim, o mesmo cara, o mesmo olhar, mas em lugares diferentes. Agora eu não o vejo apenas no reflexo da vidraça daquela agência, mas enquanto escovo os dentes e me barbeio também. Num final de semana desses, sentei-me à beira de um lago num parque que gosto de freqüentar. Vi aquele estranho lá, refletido nas águas, silencioso e distorcido. Às vezes, considero a idéia de cumprimentar-lhe, puxar conversa, sei lá... Mas nunca sei o que dizer exatamente. “Oi, tudo bem? A gente se conhece, mas ao mesmo tempo, não” ou “Ei, como vai? Eu sei tudo a seu respeito, mas na verdade não sei absolutamente nada.” Tenho vontade de ficar íntimo daquela figura, saber o que sente de fato, o que anseia, o que o machuca tanto, mas tenho receio, medo até. Acho que acabaria fazendo papel de palhaço... Sinto uma espécie de obrigação em fazê-lo, mas me dói demais admitir pra mim mesmo que aquele estranho sou eu...

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