Aquele Estranho
Sabe quando
criamos o hábito de passar sempre pelo mesmo lugar e acabamos vendo uma mesma
pessoa sempre, até nos familiarizarmos com ela, embora continuemos sendo
estranhos um para o outro? Acontece comigo. Sempre que passo por um... Nem sei
direito que lugar é aquele, acho que é uma espécie de agência de seguros ou
algo assim. Paredes branquinhas, bem limpas, várias mesas e sempre tem todo
tipo de pessoa sentada lá dentro. Bom, voltando... Sempre que passo pela tal
agência eu olho pelo vidro e vejo o mesmo sujeito todos os dias. Ele não sabe
que eu existo e, se sabe, não faz a menor idéia de quem sou, quais são meus
sonhos, meus planos, meus amores e desafetos. Sou só um cara que ele vê às
vezes. Na verdade, é recíproco. Ele está sempre ocupado com seus próprios
pensamentos, tem um olhar meio vago, quase perdido... Como se sentisse falta de
algo que era, mas já não é mais.
Acho que é
como quando já estamos crescidos e lembramos de algo que gostávamos na
infância, mas que agora parece tão bobo. A lembrança vem cheia de doçura, até
rimos sozinhos, mas logo percebemos que se trata de algo que não volta mais e,
ao mesmo tempo, nos sentimos crescidos demais para sentir falta daquilo. As
boas memórias da infância acabam virando um misto de nostalgia, amargura e
culpa. Sim, bate a culpa por causa daquela “ojeriza” que vem junto com a
saudade, entende?
Talvez ele
sinta falta de algum amor que se foi. Todo mundo deve sentir isso alguma vez na
vida, não? Talvez ele lembre de bons momentos que vivenciou. Talvez sinta culpa
por pequenos defeitos terem sido tão valorizados, gerando aquelas brigas
desnecessárias e que o fizeram rir depois de um tempo. Ou talvez o amor tenha
morrido nele, magoando outra pessoa na qual o sentimento ainda era forte,
transformando o que era belo em pura tristeza. Ou será que era solitário?
Talvez ele chegue em casa todos os dias e diga ‘cheguei’ para ninguém ouvir,
fique horas sentado no sofá sem fazer nada diante da TV e depois vá dormir,
sentindo aquele frio que só a solidão causa e que nem todo fogo do Inferno
poderia aquecer.
Certa vez, vi
uma lágrima correndo no rosto dele. Uma só. Sabe o que isso significa, não?
Quando alguém briga, se emociona ou coisa assim, verte várias lágrimas, põe
tudo para fora. Mas quando é só uma é porque algo está bem errado. É comparável
a um vazamento na parede. Se a água jorra, é só desligar o registro e consertar
o encanamento. Mas quando ficam só aquelas poucas gotas escorrendo,
provavelmente a parede já está toda corroída por dentro, bastante frágil,
podendo ruir ao mais leve toque. Pergunto-me que tamanha tristeza gerou aquilo.
Será o vazio em sua vida que ele fingia não existir? Sim, pois uma das maiores
preocupações das pessoas é parecer bem mesmo quando o mundo desmorona. Mas os
olhos sempre acabam entregando tudo... E o olhar daquele estranho me dizia
muito. Talvez ele não consiga mais disfarçar o que sente, ou eu que me
acostumei com a linguagem daquele par de espelhos.
De uns tempos
para cá, aconteceu algo curioso. Comecei a ver aquele estranho em outros
lugares. Sim, o mesmo cara, o mesmo olhar, mas em lugares diferentes. Agora eu
não o vejo apenas no reflexo da vidraça daquela agência, mas enquanto escovo os
dentes e me barbeio também. Num final de semana desses, sentei-me à beira de um
lago num parque que gosto de freqüentar. Vi aquele estranho lá, refletido nas
águas, silencioso e distorcido. Às vezes, considero a idéia de
cumprimentar-lhe, puxar conversa, sei lá... Mas nunca sei o que dizer
exatamente. “Oi, tudo bem? A gente se conhece, mas ao mesmo tempo, não” ou “Ei,
como vai? Eu sei tudo a seu respeito, mas na verdade não sei absolutamente
nada.” Tenho vontade de ficar íntimo daquela figura, saber o que sente de fato,
o que anseia, o que o machuca tanto, mas tenho receio, medo até. Acho que acabaria
fazendo papel de palhaço... Sinto uma espécie de obrigação em fazê-lo, mas me
dói demais admitir pra mim mesmo que aquele estranho sou eu...
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